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Adriana pediu demissão, comprou um pacote de viagens com o FGTS, entre outras atitudes movidas pela vontade que ela antes achava erradas. Nesse relato, ela diz que a mudança começou no Programa Brincar de Crescer.

 

 

Nas vivências que conduzimos, testemunhamos muita magia. Gente que se transforma, se enxerga de um jeito diferente, passa a agir de um jeito diferente, em geral mais alinhado com alguma vontade há muito esquecida. Acontece sempre.

É difícil transmitir em palavras o que acontece, ou mesmo o que fazemos, porque a transformação é individual e só tem significado no contexto da vida de cada um. Toda vez que tentamos fotografar as sessões ou explicar o que fazemos, fica faltando alguma coisa.

Por isso, temos pedido relatos a quem já participou das vivências e que sentiu alguma diferença em sua vida. E vamos publicá-los pouco a pouco, por aqui.

O primeiro relato é da Adriana Souza e Silva.

Em novembro de 2016, ela participou da primeira turma do Brincar de Crescer, um programa desenhado para ajudar a desenvolver a espontaneidade. Foram cinco encontros de 3 horas (hoje o programa tem 8 encontros).

O relato se refere aos cinco meses que se passaram desde a última vivência.

...

A gente cresce aprendendo o que é certo e errado. Por a mão no lixo traz germes, colocar blusa de frio é importante etc. E assim, como qualquer garota mediana, comecei a perceber que quem erra arca com as consequências. A lógica era simples: se obedecesse às instruções, o resultado era bom e eu ganhava nota dez dos meus pais, recebia um baita presente no Natal, ganhava mesada. Na escola, idem. Sempre fui a primeira aluna da escola, ganhei até bolsa de estudos pelas notas. Tudo funcionava bem.

Mas os anos se passaram e a vida começou a mudar, sem eu perceber. De repente, as consequências dos acertos e erros começaram a se misturar. Se eu fui uma boa esposa, por que meu casamento acabou? Se entreguei um super projeto no trabalho, por que meu chefe prefere o outro funcionário? Ora, eu fiz regime, mas não me tornei a garota mais bonita?

O pior nem era ver que o prêmio não era uma certeza, como acontecia na infância. Na idade adulta, o que me indignava era que, às vezes, quem fazia do jeito errado ganhava mais, tinha mais amigos e era promovido.

Aos 41 anos, quando eu soube da existência da improvisação, eu já tinha mudado um pouco meu mindset sobre recompensas X consequências nessa vida. Ainda assim, continuava fazendo de tudo para ser a certinha, mesmo sabendo que a perfeição poderia não dar o mesmo resultado que minha mãe prometeu um dia.

As aulas não eram caras e aconteciam perto da minha casa, num bom horário para mim. A turma tinha uma afinidade muito boa. Só o fato de fazer parte de uma galera disposta a “improvisar” já seria motivo para embarcar, mesmo sendo muito cética em relação a terapias e tratamentos comportamentais.

Começamos com atividades corporais, jogos em que eu precisava prestar atenção para guardar a sequência. Me esforçava para acertar, mas, a cada rodada, tudo ficava mais difícil. E errava. A consequência? Um abraço, um sorriso, um “sim”. Tudo que eu fazia na improvisação merecia um “sim”. Acertando ou errando. E eu errava muito.

Isso começou a mexer comigo. Era legal errar, tanto quanto acertar. O importante, dizia o professor, era “não perder o ritmo”. Na segunda ou terceira semana, aconteceu algo extraterreno comigo: decidi – no meio da Marginal Pinheiros – que iria trabalhar de casa naquela semana. Liguei na empresa, expliquei que não fazia sentido me deslocar para o escritório nesse trânsito de final de ano em São Paulo. Nem perguntei se podia. Só avisei que só voltaria lá na outra segunda-feira. E deu certo fazer o errado de não me juntar aos demais executivos. Decidi viajar no dia de Natal para fugir das festas familiares. De novo, foi legar errar ao abandonar os pais na semana natalina.

Aos poucos, os jogos de improvisação, nos quais eu tinha uma performance vergonhosa perante todo mundo, começaram a me transformar. Performance vergonhosa? Sim, isso não é exagero. Você está lendo o depoimento de alguém que sempre foi a número 1. Talvez, a dois... Mas nunca a que ficou em último lugar. As coisas em que eu não era boa eu nem fazia. Vôlei e basquete, por exemplo. Estou fora. Basta inventar uma desculpa e fugir das aulas de educação física ou ficar no banco. Era a atitude certa num esporte em que você joga errado.

Mas na improvisação era gostoso errar. Era engraçado. Era certo. Não tinha importância não ter coordenação motora. Era legal fazer do meu jeito pelo simples fato de que aquelas pernas trocadas e mãos perdidas no meio do exercício eram minhas. E por isso eram importantes. Nos últimos dias do curso eu via que mesmo o bonzão da turma, que quase sempre acertava, também tropeçava às vezes. E todos diziam “sim” para ele também.

A última vivência (uma versão pocket do jogo The Quest) foi uma catarse para mim. Recebi um papel com os dizeres “Prata Brilhante” ou algo do gênero. Era para andarmos a esmo pela cidade e achar algo que fizesse sentido com aquela mensagem. Ou pelo menos, entendi que era essa a tarefa. Percorri a avenida Paulista, observando suas estruturas metálicas. Havia um cinza naquela paisagem – que até remetia à cor prata – mas ainda não era aquilo que eu tinha ido buscar. Fui caminhando sem parar, da estação Consolação do metrô até a estação Paraíso. Nada fazia muita conexão com aquele papel. Voltando para a partilha final, fiquei pensando no que iria dizer. Nada das coisas pratas que vi me agradou a ponto de eu fazer uma conexão com a palavra “brilhante”.

Foi quando eu vi uma árvore de Natal prateada num shopping. Ela se diferenciava das demais decorações de Natal, todas douradas. A árvore prateada brilhava, alta, única. E tive uma epifania: prata é a premiação de quem chega em segundo lugar. É a consequência de quem fez alguma coisa errada que deixa escapar a vitória final! Mas era a prata que eu tinha nas mãos. E tudo bem. A árvore estava linda, mesmo não sendo a dourada. Perder era tão legal quanto levar o ouro. Para que esperar recompensas ou consequências do mundo de fora, se posso ter o controle de receber sempre – de mim mesma – algo que vai me fazer bem? Chorei. Na partilha, contei o que senti aos colegas, entre lágrimas. Nem sei se eles entenderam direito. Nem sei se eu havia entendido o que descobri naquele exercício que, provavelmente, eu fiz errado. Mas deu certo.

Cinco meses depois, vejo as mudanças que tiveram início naquela experiência. Sem dúvida passei a fazer mais coisas erradas. Pedi demissão, por exemplo, em meio a uma crise econômica medonha no país. Parei o regime e engordei cinco quilos. Saquei o dinheiro do FGTS e comprei um pacote de viagem. Entrei num curso de defesa pessoal para descer o braço em quem mexer comigo. Estraguei minhas unhas pintando as paredes do meu apartamento, entre outros equívocos, todos bem sucedidos. Vez ou outra, eu me pego me torturando por ter feito algo errado – ou, vai saber, algo certo – que resultou em merda.

Mas em geral paro antes de produzir uma ferida maior. Não, não cheguei ao Nirvana da autoestima, estou longe disso. Mas venho evoluindo. Para onde eu não sei. Mas a vida ficou um pouquinho mais leve sem precisar da medalha de ouro para ser feliz.

 

 

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